Um pouco sobre o cérebro, drogas, o prazer e o vício.

De uma forma bem ampla, qualquer substância que possa alterar o estado de consciência  pode ser considerada uma droga.Sendo assim, fica fácil perceber que vários elementos que utilizamos no dia a dia, alteram nossa consciência, mesmo que as vezes de forma sutil.   Imagine aquela segunda feira, você acorda cansado, vítima de mal humor, qual a solução pra se despertar? Eu diria que muitos tomam café no primeiro período do dia, ou pelo menos produtos que possuem cafeína. A cafeína presente em refrigerantes, doces, café, energéticos, frutas, é um eficaz estimulante do sistema nervoso central. O fato de ingerir cafeína, desencadeia diversas reações químicas e troca de informações entre os neurônios em seu cérebro.A cafeína inibe efetivamente a adenosina (um neurotransmissor que vai se acumulando nas sinapses ao longo do dia, ligando-se aos receptores pós sinápticos de adenosina nos preparando para o descanso.) e ainda de quebra facilita e aumenta a circulação das catecolaminas pelas vias sinápticas (adrenalina, noradrenalina, dopamina). “Mas o que diabos é isso de dopa.. o quê?” Calma, logo chegamos lá! 

É simples, o cérebro se comunica com o corpo inteiro. Essa comunicação tem que ocorrer de alguma forma, algo precisa levar e trazer essas informações. Esse é o papel do neurotransmissor. De forma bem singela, neurotransmissor nada mais é do que a molécula mensageira que o cérebro usa para enviar e receber informações. Existem várias delas. Essas moléculas neurotransmissoras podem ser excitatórias, estimulando o neurônio seguinte, assim como podem ser inibitórias, inibindo a excitação do neurônio posterior. Portanto, os neurônios se comunicam entre si, porém não se encostam, a troca de informação ocorre em um espaço entre os neurônios, chamado de fenda sináptica. Não vou me aprofundar nesta parte agora pois fugirá ao tema principal, entretanto, quem quiser entender as sinapses, pode acessar esta outra postagem aqui.
Continuando… A dopamina é um neurotransmissor com grande importância. Pelo fato de ser um neurotransmissor excitatório (que excita e estimula os neurônios com os quais se comunica). No comportamento humano está relacionada com a motivação e o prazer. A dopamina é liberada nas sinapses em diversas situações de nossas vidas; ao comer (é liberada em uma quantidade maior ainda se for sua comida favorita), ao fazer sexo, ao apostar, ao conseguir um emprego ou receber boas notícias, assim como ao jogar jogos de computador, ouvir música, dançar, etc. Além de ser essencial ao auxiliar nossos mecanismos de sobrevivência, quando presente em grandes quantidades no sistema de recompensa cerebral gera sensações de intenso prazer, vitalidade,disposição e interesse. E é exatamente nesse aspecto que as drogas agem. Ao utilizar a maioria das drogas, há um aumento na disponibilidade de dopamina no centro de recompensa do cérebro, sem a necessidade de qualquer estímulo externo. Rapidamente o cérebro assimila o uso da droga com a obtenção do prazer fácil.


Drogas diferentes, ações diferentes no cérebro – Além da dopamina

As drogas basicamente se classificam pelo seu modo de ação no cérebro. Apesar de as drogas estarem relacionadas com uma maior quantidade de dopamina no centro de recompensa do cérebro, nem sempre a dopamina é a “estrela” principal. Como dito anteriormente, a dopamina é um neurotransmissor estimulante, mas sabemos que nem todas as drogas possuem efeitos excitatórios, como por exemplo os calmantes benzodiazepínicos e os sedativos barbitúricos. Essas drogas causam sedação, sensação de relaxamento, pois elas acabam por diminuir a atividade cerebral. E no quesito “diminuir a atividade cerebral” a grandes estrela é o GABA, neurotransmissor com maior poder inibitório do nosso cérebro. Essas drogas sedativas geralmente aumentam a atividade GABA, deixando o cérebro mais lento e  causando a sedação. Outra droga que está relacionada com o sistema GABA é o álcool. Com um cérebro menos atento, menos focado e com a capacidade de julgamento alterada não fica difícil entender o motivo de tantos acidentes automobilísticos com motoristas alcoolizados, ou até acidentes de trabalho com usuários de drogas sedativas. Outra droga que causa sedação, porém está relacionada com os mecanismos das endorfinas é a heroína. As endorfinas são neurotransmissores com alto poder de analgesia e são produzidos pelo nosso próprio cérebro, tendo também relação com o prazer. O que a heroína faz é mimetizar a ação das endorfinas se ligando aos seus receptores. Assim como as outras drogas sedativas, ela diminui a capacidade dos reflexos autonômicos.  Já vimos sobre as drogas estimulantes, as depressoras mas ainda falta introduzir a terceira categoria: as Perturbadoras.
As drogas perturbadoras do sistema nervoso central são aquelas que causam alterações visuais ou alucinações como o lsd, psilocibina (cogumelo), maconha e mescalina. Elas não se caracterizam por acelerar ou lentificar o sistema nervoso central. A mudança provocada é qualitativa. O cérebro passa a funcionar fora do seu normal e sua atividade fica perturbada.

Lista da classificação farmacológica:

Drogas estimulantes do sistema nervoso central:
 Cocaína
 Anfetaminas & derivados
 Nicotina
 Cafeína

Drogas depressoras do sistema nervoso central: 
Álcool
Benzodiazepínicos 
Barbitúricos (soníferos)
Opiáceos
Inalantes

Drogas perturbadoras do sistema nervoso central: 
Mescalina
Maconha (Δ-9 THC)
Psilocibina (cogumelo)
LSD-25
DMT (Ayahuasca ou Santo Daime)
MDMA (Ecstasy)
Anticonérgicos naturais

 

Sistema Límbico – Centro de controle das emoções.laughter-limbic

Nosso cérebro possui um sistema que é responsável pelo controle das emoções. O sistema límbico é composto por distintas partes do cérebro que funcionam em conjunto, com a interação de diversos neurotransmissores e hormônios…

   Os astros deste mundo são as monoaminas, sendo as mais relevantes ao comportamento e estado de humor, a dopamina, noradrenalina e serotonina. Quando liberados nas fendas sinápticas,esses neurotransmissores modulam o comportamento influenciando no humor, na disposição, e nas emoções. Cada um desses neurotransmissores possui funções e características únicas, mas todos participam de alguma forma no processo de equilíbrio de nossas emoções, sensações e percepções. Um sistema límbico desequilibrado irá influenciar diretamente a vida do indivíduo. Há um determinado equilíbrio na quantidade e tempo de degradação dessas moléculas químicas nas fendas sinápticas, afetando a forma como percebemos e vivenciamos o mundo. Por exemplo, um indivíduo mentalmente saudável, com humor estável, possui quantidades regulares do neurotransmissor serotonina circulando pelo seu cérebro. É claro que o equilíbrio das emoções depende da interação de vários outros hormônios e neurotransmissores também, mas a serotonina está fortemente relacionada com transtornos de humor.  Assim como acontece com a dopamina, essa molécula de serotonina, passa de um neurônio para o outro, ou é recaptado novamente pelo neurônio pré sináptico que liberou a molécula, não chegando ao neurônio pós sináptico. Esta recaptação é uma forma do cérebro manter o equilíbrio da quantidade deste neurotransmissor circulando pelas vias sinápticas. Baixas quantidades de serotonina nas vias sinápticas estão relacionadas à humor deprimido, não é a toa que a maioria dos antidepressivos, conhecidos como I.S.R.S (Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina) atuam não permitindo que o neurônio que liberou a molécula de serotonina, recapte ela novamente, obrigando as moléculas de serotonina a ficar circulando na fenda sináptica ou se encaixar nos receptores do neurônio posterior. Este processo obviamente aumenta a quantidade geral de serotonina circulando, atenuando os sintomas depressivos de humor. Obviamente há diversos outros problemas de saúde relacionados ao desequilíbrio deste neurotransmissor, como por exemplo o T.O.C (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

 

E agora o vício…

drogas2prazer

Quando o assunto são as drogas ou comportamentos de vício, a dopamina é a protagonista, visto que ela está diretamente ligada à sensações de prazer e interesse. As drogas interferem diretamente no sistema de recompensa do cérebro, e algumas delas agem com maior intensidade no sistema dopaminérgico,  como por exemplo, a cocaína. Para ficar mais fácil de compreender, veja dessa forma: Em um cérebro saudável que acaba de ser recompensado por algum evento natural, o neurônio pré sináptico passa o estímulo através do neurotransmissor dopamina que excita o neurônio posterior, causando a sensação de satisfação, mas logo após as moléculas de dopamina são novamente recaptadas pelo primeiro neurônio. Essa recaptação dos neurotransmissores acontece, para haver um equilíbrio da quantidade dessas moléculas nas vias sinápticas. Quanto mais dopamina e quanto maior for o tempo que essas moléculas se encontrarem circulando nas fendas sinápticas, maior e mais prolongada vai ser a sensação de prazer experienciada. No cérebro de uma pessoa que acabou de consumir cocaína, há mais moléculas de dopamina nas fendas sinápticas do que o normal, essas moléculas normalmente seriam recaptadas, porém as moléculas de cocaína além de mimetizar e aumentar a quantidade de dopamina disponível na fenda sináptica, também inibem a recaptação dos neurotransmissores.

Dessa forma há uma enorme quantidade de dopamina circulando pelas vias sinápticas, mantendo o cérebro altamente excitado. Após passar o efeito inibidor da recaptação de dopamina da cocaína, a dopamina vai sendo novamente reabsorvida e a quantidade de dopamina diminui nas fendas sinápticas. O cérebro para compensar a alta quantidade de dopamina anterior, diminui o seu fluxo pelas sinapses, causando a desmotivação que muitos usuários relatam após o fim dos efeitos esperados. Com o uso regular, o cérebro começa a associar o prazer com o uso da droga, tornando momentos importantes da vida menos interessantes. Aquela promoção de emprego não parece mais ter tanta graça, sair com os amigos já não é tão legal, a vida parece sem graça, até a próxima dose da droga, quando novamente o cérebro será “enxarcado” de dopamina. Com o tempo, o cérebro vai se desfazendo dos receptores de dopamina pós sinápticos, que deveriam estar absorvendo dopamina, mas agora não existem mais. O cérebro faz isto como forma de se proteger das altas excitações causadas. Dessa forma o usuário já não sente mais tanto prazer ao utilizar a droga. Pois por mais que ainda o uso da cocaína aumente a disponibilidade de dopamina nas fendas sinápticas, não há receptores suficientes para receber essas moléculas neurotransmissoras, fazendo com que o efeito seja cada vez menos intenso conforme a quantidade de receptores vai diminuindo. A partir daí a quantidade utilizada precisa ser maior para alcançar algo próximo daquilo que se sentiu anteriormente. Portanto, há uma reação em cadeia que leva ao looping do vício: O usuário experimenta a droga, sente prazer. Em um primeiro contato não há grandes modificações, porém o cérebro identifica a droga como uma obtenção fácil de prazer. O usuário não vai sentir a necessidade de utilizar a droga uma segunda vez, porém, sentirá vontade, pois descobriu que é bom e não houve danos, o que faz o usuário pensar que tudo que lhe disseram sobre a droga estava errado, que ela não é viciante e a partir daí, sem perceber, começa a utilizar regularmente. Lembrem-se, há uma grande diferença entre necessidade e vontade.

Drogas recreativas e Antidepressivos.

remédio

Algumas drogas mimetizam a ação da serotonina, aumentando a quantidade dela nas vias sinápticas, causando euforia, alucinações, humor alterado. Algumas drogas inclusive funcionam de forma parecida com antidepressivos I.S.R.S como no caso do LSD (dietilamida do ácido lisérgico) que ao ser ingerido, inibe a recaptação da serotonina nas fendas sinápticas. O LSD tem uma afinidade mais específica com o receptor de serotonina 5-HT.

Já o ecstasy produz um estado eufórico mais intenso, também envolvido com  a inibição da recaptação de serotonina. No livro “Bem vindo ao seu Cérebro” (Dra Aamodt, Sandra e Dr, Wang, Sam, 2008) os autores levantam este assunto. A ciência não sabe explicar ainda por que e qual a diferença que há entre uma dose do antidepressivo como o Prozac por exemplo, que demora em média 3 a 4 semanas para alcançar algum efeito terapêutico, com um comprimido de ecstasy, que da mesma forma, inibe a recaptação da serotonina, porém, causa diferente efeitos e em um tempo relativamente diferente. Ainda há diversos questionamentos e poucas respostas sobre o assunto.



E o cigarro, não é droga?

cigarro

É droga sim, e com alto poder viciante, não é à toa que é uma das drogas legalizadas mais consumidas mundialmente. O objetivo aqui não é discutir moralmente a legalidade do cigarro, mas assim como com as outras drogas, entender  o seu funcionamento no corpo humano. O cigarro quando consumido mesmo em poucas quantidades, interage com os receptores de acetilcolina, causando leves melhoras cognitivas e assim como todas as outras drogas, está relacionada com a liberação de dopamina no núcleo accumbens. Cientistas tentam cada vez mais relacionar o vício da nicotina com os receptores dopaminérgicos. Há uma droga chamada cloridrato de bupropriona, utilizada para reduzir a vontade de fumar e possivelmente até parar. A droga funciona inibindo a recaptação da dopamina.


Cannabis leafCannabis Sativa

Dentro do patamar das drogas consideradas ilícitas, é possível citar também a cannabis, conhecida como “maconha”. A cannabis é uma planta, e tanto espécies sativas quanto as indicas possuem psicoativos. O principal deles é o THC (tetrahydrocannabinol).

thc
Molécula de THC.


Na década de 1980 houve a descoberta de que o cérebro possui receptores para a molécula da cannabis. Esses receptores posteriormente foram chamados de endocanabinóides. Imagine a molécula de THC como uma chave, e o receptor endocanabinóide como uma fechadura. Ao consumir maconha, o THC é liberado na fenda sináptica e se encaixa perfeitamente nos receptores. O THC mimetiza o efeito do neurotransmissor chamado anandamida que o cérebro produz naturalmente. Ou seja, o nosso próprio corpo possui uma “maconha” interna que é equilibrada pelo nosso cérebro. O neurotransmissor anandamida está envolvido em diversos processos naturais que envolvem nosso comportamento. A anandamida no ser humano pode ter efeitos analgésicos, ansiolíticos, além de haver relação com o apetite, momentos de felicidade e relaxamento. Isso explica de certa forma porque ao consumir maconha o usuário sente exatamente estes efeitos. Porém, se o usuário abusar ou for propenso, pode ter momentos de confusão e psicose. 

Um dos outros princípios ativos da maconha o CBD (canabidiol) possui efeitos anti psicóticos, e anti convulsivos, sendo este princípio ativo isolado em laboratório e utilizado farmacologicamente como um anti epilético. Recentemente no início deste ano a Anvisa liberou o uso medicinal deste derivado da cannabis.Clique aqui para entender melhor a liberação da Anvisa

cbd


 

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