Os impactos neurofisiológicos do estresse pós traumático em situações de abuso ou abandono infantil.

tept

 

O estresse pós traumático consequente de abuso ou abandono infantil pode alterar o funcionamento cerebral, particularmente da área responsável pelo controle das emoções, o sistema límbico. Essa alteração é agravada justamente porque na infância assim como na adolescência, algumas estruturas do sistema límbico não estão completamente formadas, como é o caso do lobo pré frontal, responsável pelas funções executivas e tomadas de decisão. Um  estudo realizado por Borges e Dell’Aglio e publicado em 2008, conseguiu identificar que pacientes que sofreram abuso no início da vida possuíam o corpo caloso menos estruturado, o que por consequência diminui a efetividade da comunicação entre os dois hemisférios cerebrais.


Um outro estudo de Teicher publicado em 2002, faz uma relação entre o transtorno de personalidade limítrofe (borderline) e a sua incidência em vítimas de abuso infantil. Tanto em vítimas de abuso, quanto em pacientes com o transtorno borderline é possível notar nos exames de ressonância magnética um padrão onde o corpo caloso está reduzido. Essa fraca comunicação entre os hemisférios cerebrais pode explicar porque os pacientes com o transtorno de personalidade limítrofe alternam tanto as suas percepções por uma mesma pessoa, percebendo as pessoas sempre em extremos (muito boas, ou muito ruins). Essa dominância alternante entre polaridades pode gerar sentimentos, memórias e percepções completamente diferentes dependendo do hemisfério dominante no momento. O mesmo estudo conclui que crianças que foram vítimas de violência, outra forma de abuso muito comum, tem um menor desenvolvimento do hemisfério esquerdo em relação ao direito.

Além do corpo caloso há também uma relação entre o estresse pós traumático e uma outra estrutura cerebral chamada “vermis cerebelar”. Essa estrutura é responsável por modular os núcleos que são responsáveis pela liberação de dopamina e noradrenalina.  Conforme o estudo, pessoas que foram vítimas de abuso possuíam esta estrutura com um menor fluxo sanguíneo, caracterizando uma disfunção da estrutura. Uma disfunção nestes núcleos pode explicar as diversas consequências nos indivíduos com alta impulsividade, problemas sociais e com transtornos de humor.

É importante salientar que esse funcionamento anormal do sistema límbico também é influenciado pela maior densidade de receptores de cortisol tanto no vermis cerebelar, quanto no hipocampo, que são geralmente consequências de eventos estressores, esses que podem também influenciar o funcionamento da amígdala. Alterações na amígdala podem mudar a percepção do indivíduo a respeito da intensidade de um evento estressor, fazendo com que ele perceba um evento de forma muito mais intensa do que realmente é na realidade. Por trabalhar em conjunto com o hipocampo, a amígdala ainda está relacionada com a criação do conteúdo emocional da memória, por exemplo sentimentos relacionados ao medo e a agressividade. O medo que você sente intensamente ao ver uma barata ou um rato, está diretamente relacionado as experiências anterioes que você já teve com baratas. Se foram experiências ruins e traumatizantes, faz sentido que ao ver uma barata o seu sistema de luta ou fuga (amígdala), seja ativo, certo? Mesmo que uma barata racionalmente não seja uma ameaça mortal iminente, para você isso pode não fazer sentido. Esse medo desproporcional de situações estão normalmente relacionados a disfunções no sistema límbico, tendo como ponto principal de interação a amígdala.   Alterações na amígdala estão relacionadas por exemplo, há ataques de pânico, situação na qual há uma hiperativação dessa estrutura, fazendo com que o indivíduo sinta uma necessidade iminente de luta ou fuga.

Por fim, complementando todos esses achados, o estudo de Teicher traz que pacientes vítimas de abuso também apresentaram alterações na estrutura dos receptores GABA na amígdala. Esses receptores se ligam ao GABA, principal neurotransmissor inibitório do cérebro. Seu funcionamento faz com que haja a redução da excitabilidade elétrica excessiva dos neurônios. O funcionamento alterado desses receptores faz com que essa excitabilidade dos neurônios não seja tão atenuada, ocasionando uma irritabilidade do sistema límbico.

 

 

 
ESTUDOS CITADOS:

Borges, Jeane Lessinger, and Débora Dalbosco Dell’Aglio. “Relações entre abuso sexual na infância, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e prejuízos cognitivos.” Psicologia em Estudo 13.2 (2008): 371-379.

Teicher, Martin H. “Feridas que não cicatrizam: a neurobiologia do abuso infantil.” Scientific American Brasil 1.1 (2002): 83-89.

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Imagem utilizada: http://demasiadohumano.com/wp-content/uploads/2016/06/tept.jpg

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